Maldito Buzzati



Espero que essa carta te encontre bem. Sempre tive vontade de escrever isso! Mas ainda não havia tido a oportunidade. Lembra daquela música em que o Renato Russo cantava sobre uma carta? Aquela em que a garota não tem coragem de declarar seus sentimentos? Podia ter sido a nossa música, mas eu nunca consegui gostar dela. E mesmo sem falar nada de italiano, eu entendia todas as palavras contidas na letra. Exatamente como na bendita música, eu também quero dizer tudo que eu tenho engasgado na garganta mas não consegui fazer isso pessoalmente. Então te escrevi essa carta. Se eu bem te conheço, já deve estar pensando: “Caramba, que coisa mais brega! Isso tá parecendo um daqueles romances de banca que tua mãe lia”. 


Para ser breve, sem rodeios, estou te deixando, não somos mais um casal. Simples assim! Nossa relação acabou. Confesso que nunca pensei em pronunciar essas palavras. Que bela ironia, justamente nós, que espalhávamos aos quatro ventos que o nosso amor era pra sempre. Hoje eu percebo o quanto fui tola. Devo concordar com aqueles que dizem que o amor nos deixa cegos, surdos, idiotas. Eu estava apaixonada demais para perceber o que viria. Agora é tarde para lamentar. 


Acreditei piamente nas tuas promessas de que seríamos felizes, que você seria um companheiro amoroso e atencioso. E seríamos um casal perfeito, digno de protagonizar um comercial de margarina. Também sinto em te falar, mas não seremos aquele casal de velhinhos caquéticos rodando a Europa inteira de trem. Ou fazendo o Caminho de Santiago, nem que seja numa cadeira de rodas elétrica. Lembra que sempre ríamos dos nossos amigos  e seus amores efêmeros? Relacionamentos que acabam em uma conversa de WhatsApp. Pagamos com a língua? Talvez. 


Fique a vontade pra me chamar de covarde por abandonar tudo e sumir assim. Mas eu não consigo mais olhar na tua cara. Não tenho intenção de alongar essa carta, detalhando todas as minhas razões e todos os seus defeitos. Até porque, como você bem sabe, nunca fui de escrever textão. Não quero me justificar ou te dar qualquer explicação. Mas antes que você pense mal de mim: não perdi o juízo, não encontrei outra pessoa no Tinder, muito menos me tornei lésbica (e se eu decidisse mudar de time, qual o problema?) também não te coloquei um par de chifres. Mesmo você  merecendo, eu não me rebaixaria a tanto. 


Lembra daquele livro do Buzzati? Exatamente, aquele exemplar bonito de O Deserto dos Tártaros, que você ganhou no amigo oculto da firma e nunca leu. Pois é, ele foi o pivô da nossa separação. Dia desses eu estava entediada e comecei a folheá-lo. Sim, a razão de eu ter te deixado foi um livro! Aos teus olhos pode parecer patético, mas aquela leitura me fez perceber que nossa história estava fadada ao fracasso e a infelicidade. Igual ao personagem principal, eu também esperava por algo que nunca chegaria. Buzzati também me me fez perceber o quanto essa vida é breve e que não valia continuar ao teu lado. Chega de gastar o meu latim, não vale a pena. Mas não te desejo nada de ruim, até porque o carma é implacável e sempre volta com o dobro da intensidade. Desejo de coração que você seja feliz, mas não mais ao meu lado. Adeus!

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