Top 9 de Quadrinhos Favoritos de 2021 - Parte 1
O ano está chegando ao fim e como já é tradição no Instagram, e agora nesse blog. Faço um balanço e escolho os nove livros e quadrinhos favoritos do ano. Esse ano foram tantas boas leituras que não consegui escolher apenas nove e dividi o post em duas partes. Essa é a primeira.
Berlim – Jason Lutes (Editora Veneta)
Berlim foi a minha
primeira e mais impactante leitura do ano. Um tijolinho de quase 600 páginas
que demorou quase 20 anos para ficar pronto. O livro apresenta um panorama da Berlim dos anos 1920: os
cabarés, a vida operária, a vanguarda artística, a intelectualidade de
esquerda, os comunistas enfrentando nazistas nas ruas e uma sociedade
escorregando à vista de todos para a brutalidade fascista. Lutes mostra
todas essas mudanças pelos olhos de seus cidadãos.
Marthe Müller, uma jovem que troca a confortável vida burguesa em
Colônia pela libertária Berlim; Kurt Severing, um jornalista idealista que
perde sua fé na palavra impressa à medida o extremismo e o fascismo avançam; os
Brauns, uma família dilacerada pela pobreza, violência e política. A obra
acompanha a vida desses personagens e as mudanças da cidade, que caminha para a
destruição. Uma obra prima.
A espera - Keum Suk Gendry-Kim (Editora Pipoca e Namquim)
A espera é o novo trabalho da autora de Grama publicado no Brasil. Assim
como Grama, A Espera também retrata os males da guerra. A autora se baseou em
uma revelação sobre sua própria mãe, que foi separada da irmã durante a guerra
da Coreia. Keum descobriu através de suas pesquisas que essas separações não
era incomums entre o povo coreano.
A graphic novel conta a história de Jina, uma romancista, filha de
Gwija, uma senhora coreana que, aos dezessete anos, foi obrigada a se casar com
alguém que não conhecia para escapar do destino cruel de servir às tropas
japonesas como “mulher de conforto”, na Segunda Guerra Sino-Japonesa.
Apesar do casamento forçado, Gwija encontra a felicidade; mas ela durou
pouco. Separada do marido e do filho durante a Guerra da Coreia, ela consegue
chegar ao Sul e começar uma nova família, porém, sem jamais se esquecer da antiga.
Anos depois, Jina promete ajudar a mãe a encontrar seus amores de outrora, só
que, tendo se passado 70 anos desde a trágica separação. Se você gostou de
Grama, vai amar essa história.
Pele de Homem – Hubert e Zamzim (Editora Nemo)
Pele de Homem foi uma das melhores surpresas do ano. A história se passa
durante o renascimento italiano e nos apresenta Bianca, uma jovem de família
nobre, que está em idade de casar. Seus pais encontram Giovanni, um jovem e
rico comerciante. Porém ela não esconde a frustração de casar com um homem que
nunca viu na vida.
Ela não esperava que as mulheres de sua família têm um segredo guardado
por gerações: uma pele de homem, que ao vesti-la, Bianca se transforma no belo
e sedutor Lorenzo. Ela então passa a desfrutar de todos os “privilégios”
masculinos. Além de descobrir o amor e a sexualidade.
Pele de Homem através de seu tom de fábula levanta questões relevantes e
bem atuais sobre religião, moral, liberdade e igualdade entre os sexos. E questiona
por que as mulheres deveriam ter uma sexualidade diferente da dos homens? E Por
que seu prazer e sua liberdade deveriam ser objeto de desprezo e opressão? A
Graphic Novel francesa venceu prêmios importantes como o Fauve des Lycéens no
Festival de Angoulême 2021 e o Grande Prêmio da Crítica Especializada (França)
ACBD 2021.
Crônicas de Jerusalém - Guy Delisle (Editora Zarabatana)
Guy Delisle já viveu em vários lugares do mundo e em cada ele nos dá sua
visão crítica e bem-humorada sobre o dia a dia daquele país. Nesse volume ele
se muda para Jerusalém após a esposa receber uma oferta de trabalho com os
Médicos sem Fronteira.
Local sagrado para judeus, muçulmanos e cristãos, Jerusalém está no
centro do conflito israelense-palestino, e o autor percorre este território com
sua mulher e seus dois filhos, narrando suas experiências cotidianas e
observações sobre a política, a religião e o relacionamento humano.
Crônicas de Jerusalém ganhou o Prêmio Fauve D'Or 2012 de melhor álbum no
Festival International de la Bande Dessinée de Angoulême, na França.
A Odisseia de Hakim - Fabien Toulmé (Editora Nemo)
O cartunista francês Fabien Toulmé conta com muita sensibilidade, em três
volumes, a história real de Hakim, um jovem sírio após a explosão da guerra civil
na Síria, teve de deixar tudo para trás: sua família, seus amigos, seu negócio
próprio, seu país. Tornando-se um refugiado.
Em cada um dos volumes acompanhamos uma parte da odisseia vivida Hakim.
Enfrentando milhões de dificuldades em busca de um futuro seguro para ele e sua
família. Difícil não se emocionar com essas graphic novels.
Em Ondas – A J Dungo (Editora Nemo)
AJ Dungo une duas paixões nessa graphic novel de não ficção: o surfe e sua companheira Kristen. Ele entrelaça sua própria história com as de alguns dos grandes heróis desse esporte, que remontam aos povos originários da Polinésia e do Havaí, em uma rara obra de não ficção que é tão comovente quanto fascinante.
Nessa alternância de capítulos, que se diferem pelas cores, o artista detalha como conheceu Kristen, a história de amor do casal e a luta dela pela vida ao descobrir um câncer ósseo.
Mesmo que você não goste ou não se interesse pelo esporte, essa graphic
novel vai te deixar com lágrimas nos olhos ao final da leitura.
Degenerado – Chloé Cruchaudet (Editora Nemo)
Degenerado de Chloé Cruchaudeté uma adaptação para os quadrinhos do livro La Garçonne et l’assassin, de Fabrice Virgili e Danièle Voldman. A história foi inspirada em eventos reais e se passa em 1911, numa efervescente Paris, as vésperas da primeira guerra mundial. Paul e Louise, se apaixonam e logo se casam.
Porém Paul está servindo o exército e a guerra separa o casal. Ele tenta escapar do inferno das trincheiras a qualquer curso e acaba se tornando um desertor. Ele reencontra Louise, e para continuar vivo sua única saída é viver escondido em um quarto de hotel. Para dar fim a sua clandestinidade, Paul imagina uma solução: mudar de identidade.
A partir de agora ele se chamará Suzanne. Entre a confusão de gênero e o trauma da guerra, o casal terá um destino extraordinário. Destaque para o posfácio da edição, que traz várias informações adicionais e documentos do verdadeiro julgamento. Fiquei bem chocado com essa história e ela passou dias reverberando na minha cabeça.
Arlindo – Ilustralu (Companhia das Letras)
Arlindo é a primeira graphic novel da artista potiguar, Luiza de Souza, mais conhecida na internet como
Ilustralu. O trabalho começou como web comic nas redes sociais e conquistou
milhares de fãs. E agora foi relançado pelo selo de quadrinhos da Companhia das
Letras.
Arlindo é um garoto cheio de sonhos e vontade de encontrar seu lugar no
mundo. Tudo o que ele quer é seguir sua vida de adolescente na cidadezinha onde
mora, no interior do Rio Grande do Norte. Ele aluga filmes na locadora com as
amigas todo sábado, sente o coração bater mais forte pelas primeiras paqueras,
canta Sandy & Júnior no chuveiro, cuida da irmã mais nova e ajuda a mãe a
fazer doces para vender.
Por mais que ele se esforce muita gente na cidade não aceita Arlindo ― o
que traz uma série de problemas na escola e até mesmo dentro de casa. Aos
poucos, porém, ele vai perceber que vale a pena lutar para ser quem ele é,
ainda mais quando tem tanta gente com quem contar.
O quadrinho chama a atenção belíssimo traço, as cores vibrantes e as muitas referências aos anos 2000.
Quem foi adolescente nessa época vai se identificar e se divertir bastante com
elas. Uma bela história contada com muito bom humor e sensibilidade.
A solidão de um quadrinho sem fim – Adrian Tomine (Editora Nemo)
A solidão de um quadrinho sem fim, é o segundo trabalho do cartunista canadense Adrian
Tomine. O autor conta com muita sinceridade os percalços de se tornar um quadrinista.
Tudo começa com uma espécie de crise de identidade após um incidente médico. Durante
essa estadia no pronto-socorro, ele passa a se questionar se sua carreira vale
a pena.
Ele detalha com muito humor e sarcasmo as experiencias
em turnês de lançamento caóticas, as entrevistas desastrosas e interações
conturbadas com outros artistas. Além de falar sobre sua infância, experiencias
com bullying, vida pessoal, casamento e paternidade. Tomine expõe sua relação
conflituosa com as HQs e a cultura dos quadrinhos.
A solidão de um quadrinho sem fim arranca boas risadas e faz pensar. O
livro chama atenção pelo seu formato moleskine, como se fosse um caderninho de
rabiscos que o autor usa no seu cotidiano. A graphic novel levou dois troféus do
premio Esiner em 2021: melhor quadrinho biográfico e melhor design de produção.
Merecidíssimos.
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