Sobre livros e viagens de ônibus



Adoro andar de ônibus, não importa se a viajem é longa ou curta. E gosto ainda mais de ler um livro durante a viagem. Não consigo sair de casa sem um livro. Quando tenho dúvida se a leitura será realmente boa, sempre levo um ou dois livros reserva. Também não dispenso um fone de ouvido, ainda mais agora, em que a falta de educação/noção impera. Algumas pessoas insistem em ser  o "DJ do Busão" castigando os ouvidos dos demais com música ruim num volume altíssimo. Sem falar que alguns insistem em passar a viagem inteira a ver stories ou mandar e ouvir mensagens de áudio no whats. Fico impressionado com a qualidade e o alcance dos dados móveis dessas pessoas, que funciona até no meio do nada. 

Quando estou viajando adoro ficar em silêncio e mergulhar numa boa leitura. Porém amo fazer pequenas pausas para olhar a paisagem. Pra não ser perturbado, já cheguei ao ponto de fingir não falava português. por uma mulher que tentava puxar conversa e me contar a vida dela inteira. "Mi scusi, Signora. Non parlo portoghese." A estratégia deu certo, não deu mais um piu no resto da viagem. Noutra situação vindo de Fortaleza, um sujeito embriagado sentou ao meu lado e começou a torrar a paciência. Não tinha nem como trocar de lugar pois o ônibus estava lotado. Ele cismou que eu era professor, só porque estava lendo. Por sorte ele não demorou a descer. 

Li livros incríveis que se tornaram favoritos viajando pelas estradas. Vou falar brevemente sobre alguns deles. Para começar, no longínquo ano de 2001, eu havia acabado de entrar na faculdade e fui para um Congresso de Comunicação em Salvador. Apenas 24 horinhas de viagem saindo de Teresina. Levei literalmente uma mala cheia (e pesada) de livros bem variada, uns seis ou sete títulos. Na minha cabeça eu iria conseguir ler todos. O conteúdo ia do clássico Frankenstein de Mary Shelley aos best sellers O Testamento de John Grisham e O Diário de Bridget Jones. Apesar de não conhecer ninguém no ônibus, fiz várias amizades rapidamente e meus planos de leitura foram por água abaixo.

Outra viagem longa e bem marcante foi pra João Pessoa, na Paraíba. O ônibus saía no meio da noite e atrasou bastante. Como se isso não fosse suficiente parava toda hora e a jornada até a Paraíba demorou mais que o previsto. Dessa vez escolhi Comer, Rezar e Amar que estava sendo muito comentado na época. Abandonei o livro logo que ela acabou de falar sobre o tempo em que morou na Itália. Não conseguia me conectar com a escrita da autora. A minha salvação foi um exemplar velhinho e surrado de Anarquistas, Graças a Deus da Zélia Gattai, e a conexão com a escrita e as memórias de Dona Zélia foi instantânea. Nem a turma de jovens bebendo e fazendo algazarra no fundo ônibus conseguiu estragar.

Durante a monografia do curso de jornalismo foi a época em que eu mais viajei de ônibus. As três horas de viagem entre Valença e Teresina ou vice-versa, eram minha válvula de escape das leituras acadêmicas. No último semestre não tínhamos mais aulas presenciais, somente encontros com os orientadores. Acabava a orientação e eu partia pra casa dos meus pais para escrever com mais tranquilidade. Através da indicação da minha orientadora, eu conheci Gabriel García Marques, que antes de ser um autor de sucesso foi jornalista. Eu tinha receio de não entender Cem Anos de Solidão, mas acabei cedendo e dando uma chance ao livro. Conhecer a família Buendia, Macondo com todo seu realismo mágico foi uma experiência fascinante e eu não conseguia largar o livro e me continha para não gargalhar dentro do ônibus. 

Inclusive minha última viagem de ônibus Gabo me fez companhia, li Diatribe de amor contra um homem sentado, única peça de teatro escrita pelo autor. Publicada em 1987 e até então inédita em português. Que livro fantástico! O texto é um monologo onde uma mulher, prestes a completar 25 anos de casamento despeja todo seu rancor, frustrações e outros sentimentos negativos em cima do marido. Um manequim, um ser inanimado que se limita somente em ler o jornal. Provavelmente um recurso sobre um personagem capaz de esboçar qualquer reação. Texto curto, itenso e que prende o leitor até o último paragrafo.   


 

 

 


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