Barulho Discos


Minha paixão pela música começou cedo, desde que eu me entendo por gente. Não sei dizer de onde ela veio. Provavelmente do encanto que os vinis dos meus pais exerciam sobre mim. Uma das minhas brincadeiras favoritas era espalhá-los pela casa e fazer de conta que eu tinha uma loja de discos. Passava tardes inteiras a admirar as capas, ler os encartes e a vender discos para mim mesmo. Vai entender, mas era bem divertido. 

Tínhamos uma vitrola muito antiga, acho foi comprada quando meus pais se casaram. Ela ficava apoiada em duas caixas de som enormes, feitas de madeira. e não tinham uma qualidade de som muito boa. Nessa época, eu era o único filho/sobrinho e atazanava a família toda por discos, principalmente as minhas tias. E quando meus pais viajavam, a recompensa por ficar em casa e me comportar, era sempre um disco novo. 

Meus discos preferidos nessa época eram: Balão Mágico, o primeiro disco deles e o segundo disco da Xuxa. Um adendo traumático nessa parte: uma tia derrubou um dos meus discos da Xuxa e ele se espatifou no chão, partindo-se em vários pedaços. Ela prometeu comprar um novo e até hoje isso nunca aconteceu. Também amava discos de novela e uma coletânea do ABBA da minha mãe. Eu ouvia o disco inteiro, sem pular nenhuma faixa. Continuo um grande fã até hoje. 

Com a chegada do CD ao mercado fonográfico, aquelas capas de papelão enormes, que eu amava, deram espaço a caixinhas compactas de acrílico. Não demorou muito e as lojas de discos foram se modificando e o vinil perdeu definitivamente seu espaço para o Compact Disc, ou pros íntimos, CD. Os disquinhos coloridos, com somente um lado e um número bem maior de faixas me conquistaram. E o melhor de tudo eram as vantagens tipo; um som limpo, sem saltos durante as músicas e nenhum chiado. 

Todas as vezes em que ia à Teresina, era tradição ir até uma das lojas da Barulho Discos no Centro e comprar alguns CDs. Mesmo com as parcas economias de vários meses dava pra comprar alguma coisa. A Barulho foi um fenômeno, tinha várias filiais espalhadas pelo Centro e outras duas nos shoppings. Essa loja dominou o mercado de CD´s da cidade durante a década de noventa até meados dos anos 2000. Época em que as lojas de discos foram perdendo espaço pro MP3, até serem praticamente extintas.  

As lojas da Barulho Discos chamavam atenção pelas fachadas cheia de grafites coloridos e cheios de estilo. Sempre com caveiras e monstros estilizados que representavam o rock. A filial que eu mais frequentava era uma pequeninha, na Rua Barroso. O lugar era um verdadeiro cubículo, e o vendedor era um rapaz muito alto, por pouco ele não batia a cabeça no teto e quase não cabia dentro da loja.o nome dele eu não me recordo, acho que ele nunca me disse, me recebia com um sorriso e boas indicações. 

Lembro até hoje dos CDs que eu comprei nessa época e o que mais ouvia: O Samba Poconé do Skank, provavelmente o disco deles mais popular. Laura Pausini - Le Cose Che Vivi, que eu sabia todas letras, mesmo sem entender quase nada de italiano. Porém, o disco que mais me marcou nessa época foi Equilibrio Distante do Renato Russo. Nunca esqueci o momento em que entrei na loja e estava tocando "Lettera" em volume altíssimo. Eu desisti imediatamente de todas as outras compras e levei somente ele. Foi uma paixão instantânea que dura até hoje. 

Hoje eu sou um usuário assíduo dos serviços de streaming e gosto muito da praticidade e variedade de músicas e artistas do mundo inteiro. Faço e desfaço playlists imensas, algumas  delas duram mais de 48 horas, sem repetir nenhuma música. Costumo colocá-las no modo aleatório e deixar o acaso escolher qual será a próxima música. 

Mesmo com toda essa praticidade não me desfaço jamais dos meus CDs. O Spotify é prático mas ainda têm muitas falhas. Faixas ficam indisponíveis e somem, sem nenhum aviso prévio. Isso acontece até mesmo as compradas no iTunes. Um bom exemplo disso é a regravação de Wutering Heights da Kate Bush, feita pela própria cantora. A faixa saiu apenas em uma coletânea lançada em 1986. Gosto muito mais da regravação que da original. Mesmo tendo pago pela faixa, ela "sumiu, desapareceu, escafedeu-se..." como diria o pessoal da Blitz. Por sorte eu tenho em CD e alguma boa alma postou o áudio no Youtube, mas já não faz parte das minhas playlists. Ouça nesse link e depois me diga se tenho razão.  

Outro problema dos streamings que me incomoda bastante é que o catálogos de alguns artistas continua incompleto. Por exemplo, a versão digital de Equilibrio Distante do Renato Russo, que eu citei acima, não possui a última música, a bela "La Vita è Adesso". E discos super populares como Acústico MTV da Gal Costa, nunca chegaram a essas plataformas. Para ouvir essas músicas tenho que recorrer à boa e velha mídia física. A explicação das gravadoras para essa indisponibilidade são motivos diversos: desavenças no repasse dos direitos autorais, falta de liberação dos seus compositores e por aí vai. 

O modo de consumir música continua mudando. O jogo virou  e agora vinil voltou com força total e  preços nas alturas. Os bolachões estão dando o troco nos CDs e reocupando o seu espaço nas lojas e coleções dos aficionados por música. Confesso que mesmo achando os discos de vinil belos e charmosos, continuo não sinto nenhuma falta deles. Principalmente dos pulos e chiados. Definitivamente não tenho a menor vontade de voltar ao formato e vou continuar a admirá-los de longe. 



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