Flanar, eu preciso


Que saudade de viajar.! Esses dias estou com esse pensamento recorrente. Provavelmente são lembranças que o livro O Flaneur do Edmund White vêm desencadeando. Saudade de planejar, pesquisar hotéis, passeios, fazer as contas pra ver se orçamento permitirá. Saudade até da chatice de arrumar a mala e conferir várias vezes se não esqueci de nada. Tenho pensado constantemente na sensação de chegar em um lugar desconhecido. Aquele frio na barriga quando me dou conta do quão longe de casa estou. 

Minha mente ansiosa pensa em milhões de coisas ao mesmo tempo, principalmente em tudo que pode dar errado: serei barrado na imigração, terei a bagagem extraviada, o hotel não recebeu a reserva e por aí vai. Até agora nunca aconteceu nada disso. Mesmo assim só consigo relaxar depois de fazer o check-in e entrar no quarto pra deixar a mala. Uma das primeiras coisas que faço é explorar os arredores do hotel à procura de livrarias, sebos e cafés. Sempre me perco, mas nada que pedir uma informação a um transeunte não resolva. 

Um dos meus flaneurs inesquecíveis aconteceu há exatos 10 anos e foi totalmente improvisado. Minha irmã teve uma crise de enxaqueca na frente museu do Louvre e tivemos que voltar às pressas pro hotel. Depois de deixá-la no quarto, ela cismou que tinha que sacar dinheiro. Sem necessidade. Peguei um ônibus turístico, já que o bilhete ainda era válido e percorri os principais pontos turísticos até chegar à Avenida Champs-Elisée. A agência do Banco do Brasil fica em um dos endereços mais caros do mundo e é apenas uma portinha muito discreta. Como era de se esperar o banco estava fechado, devido às festas de final de ano. 

Demorei alguns minutos na parada à espera do ônibus e com a demora, preferi voltar andando para o hotel. Era uma caminhada considerável mas no fim das contas foi uma excelente decisão. Passei mais de meia hora admirando o Arco do Triunfo, sem ninguém me importunando por fotos. Além de monumento militar, é uma espécie de rotária gigante com uma visão de 360 graus e acesso a 12 avenidas. Uma dica importante, nunca atravesse a rua, pois o trânsito é caótico. Existem passagens subterrâneas que levam ao outro lado da avenida. Para se ter uma ideia do tamanho da confusão, os seguros não cobrem acidentes no entorno do Arco.

Era uma tarde de inverno cinza, nublada, a temperatura estava próxima dos dois graus. O vento gelado batia no rosto, tive uma crise de rinite violenta. Mas nada disso conseguiu me parar. Depois de consultar um mapa, entrei na Avenida Kléber e segui em linha reta em direção ao Trocadéro. Segundo o Google Maps é um trajeto de 1,7KM e leva-se quase meia hora pra percorrer essa distância a pé. Flanar pra mim é isso, encontrar uma certa paz interior. Colocar os pensamentos em ordem. Observar as pessoas passando, perceber a cidade e os pequenos detalhes que ignoramos com a pressa do cotidiano.

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