Livros têm alma
Livros usados são objetos fantásticos e literalmente cheios de histórias. Adoro abrir um livro antigo e me deparar com a assinatura do antigo dono, encontrar uma dedicatória, um carimbo de biblioteca, um ex-libris. Esses vestígios me atiçam a curiosidade me fazem querer saber por onde esse livro esteve; em que livraria ele foi comprado; a quem ele pertenceu, quantas pessoas o leram antes de mim. Sempre que penso em comprar um livro, faço uma pesquisa em sebos e sites para saber se o usado está mais em conta que o novo. Páginas amareladas, dobradas, oxidação não me incomodam em nada. Pelo contrário, acredito que dão mais personalidade ao exemplar. Gosto de pensar que esses pequenos defeitos/marcas são como se fossem rugas, inevitáveis e implacáveis marcas da passagem do tempo.
Não gosto de marcar livros, a não ser em caso de estudos. Mas não me incomoda em nada que as pessoas o façam. Agora mesmo estou lendo um exemplar usado de uma biografia do escritor americano Truman Capote que está repleta de grifos, desenhos e comentários feitos pela antiga dona do exemplar. Alguns deles engraçadíssimos. Em certa parte do livros os grifos pararam, teria ela abandonado a leitura? Que não é das mais fáceis. Não a culpo. Eu quase desisti várias vezes. No fim das contas foi uma experiência interessante, uma espécie de clube do livro com uma desconhecida. Ou nem tão desconhecida, já que ela assinou com nome e sobrenome na primeira página e consegui localiza-la nas redes sociais. Em tempos de Google e redes sociais, qualquer pessoa consegue te encontrar em dois cliques. Uma situação tão peculiar que poderia facilmente habitar um dos contos de Italo Calvino ou George Orwell.
Outra coisa que adoro encontrar em livros usados são dedicatórias. Fico imaginando qual teria sido a razão da pessoa ter se desfeito daquele presente. Acabou a amizade? Não gostou do presente? O antigo dono faleceu e a família se desfez do acervo? Faltou espaço? São tantas perguntas. Geralmente as dedicatórias que vejo são mensagens cheias de carinho e afeto e as pessoas simplesmente se desfazem desses exemplares sem a menor cerimônia. Sinceramente, admiro o desapego dessas pessoas. Pode me chamar de sentimental, mas eu não me desfaço de nenhum livro que me alguém tenha me presenteado. Se algum dia você me deu um livro, pode ter certeza que jamais irei me desfazer dele. O interessante é que sou péssimo pra escrever dedicatórias, sem falar que minha caligrafia (que nunca foi boa) tem piorado com o tempo.
Outra característica interessante dos livros usados é que as pessoas esquecem objetos dentro deles. Eu, por exemplo, vivo perdendo marcadores. E nunca mais os encontro. Alguns sebos têm verdadeiras galerias com objetos inusitados encontrados em meio às páginas. Já vi posts no Instagram em que clientes esqueceram ingressos de concertos, cartões postais, bilhetes de transporte público e até cédulas antigas. Também já encontrei algumas coisas bem divertidas como um bilhete da diarista para avisar que a máquina de lavar está com defeito, uma lista de compras em italiano, um calendário dos anos 80 e por aí vai. Não obstante, o mais divertido não estava dentro do livro, mas no papel de embrulho. O vendedor reaproveitou algumas notificações escolares, comunicados que os pais recebem quando os rebentos não se comportam em sala de aula.
Livros usados são uma espécie de capsula do tempo. Em que pequenas lembranças e histórias se fundem. E não importa o quanto mundo mude, a tecnologia avance, os "alfarrábios" sempre terão lugar cativo no coração dos leitores.





Comentários
Postar um comentário