Sobre Ferrante e as lembranças
Uma das coisas mais incríveis que a leitura de proporciona, é que alguns livros e estórias desbloqueiam memórias afetivas, que estavam guardadas lá no fundo do inconsciente. E acabam me inspirando a escrever sobre elas. Assim como em um texto passado desse blog; em que Italo Calvino me fez relembrar da minha bisavó, em uma história de família que escutava com frequência. A leitura da nova obra da Elena Ferrante, I Margini e il Dettato (As Margens e o Ditado), foi responsável por desbloquear várias recordações e me motivou a escrever esse texto.
O livro é uma transcrição de três palestras formuladas pela autora para a
Universidade de Bolonha.
No capítulo Acquamarina,
a autora fala sobre a lembrança de uma pedra preciosa, com esse mesmo no nome no anel da
sua mãe. A autora relembra que durante sua infância tinha uma paixão por coisas
reais, que a estimulavam a esmiuçar esses objetos através de descrições, e isso
estimulava o nascimento das suas estórias. No trecho abaixo a autora detalha
como funciona essa “ferramenta”.
“Dentro - dentro
de nós - não há nada além dos frágeis mecanismos do nosso organismo. O que
chamamos de "vida interior" é um lampejo permanente do cérebro que
quer se materializar na forma de voz, de escrita. Então olhei à minha volta, esperando; para mim, então, a escrita, tinha essencialmente, olhos: o tremeluzir da
folha amarela, as partes reluzentes da máquina de café, o dedo anelar de minha
mãe com a água-marinha, que emitia uma luz celestial, minhas irmãs brigando no
quintal, as orelhas enormes do careca de avental azul. Eu queria ser um
espelho. Associei fragmentos de acordo com um antes e um depois, encaixei-os uns nos
outros, surgiu uma história. Acontecia comigo naturalmente, eu fazia isso o
tempo todo.”
Então, retornemos às lembranças da minha avó que Ferrante desencadeou, Vovó tinha um baú muito, mas muito antigo, que ficava na dispensa, onde quase ninguém entrava. Aquela mala imensa e desgastada pelo tempo me fascinava, era como se fosse a arca do tesouro que via nos filmes de piratas. E também era uma espécie de cofre pra mim. Onde eu guardava o trocados economizados, e também era o esconderijo de coisas pequenas como brinquedos ou chocolates, que eu não queria dividir com ninguém.
Para minha avó era de fato, o baú dos tesouros, os seus tesouros. Outras pessoas podiam julgar tais objetos como quinquilharias ou cacarecos, mas para ela eram inestimáveis. Cada objeto contido alí tinha uma história, e remetia a alguma lembrança. Roupas, álbuns de fotos, documentos e outros papeis esmaecidos vê amarelados. Porém o objeto mais precioso, segundo ela, era um sabonete infantil, nunca usado, em formato de coelho, lembro inclusive, que faltava um pequeno pedaço da orelha.
Aquele coelho fazia parte do enxoval de uma filha, que ela havia perdido ainda criança. Mesmo guardado há tantos anos, o sabonete ainda emanava um perfume que a fazia recordar da filha. Minha avó se foi há alguns anos. O baú se perdeu no tempo, mas essas memórias continuarão vivas na minha mente. E será sempre um prazer recuperá-las. Quem sabe um cheiro, uma música, outro texto desbloqueiem outras histórias. Será um prazer contá-las aqui.
Que lindo, Vicente. Acho que Ferrante tira o melhor que temos em nós, mesmo que em um primeiro momento pareça exatamente o contrário
ResponderExcluirOs personagens dela são muito humanos e por isso muito bem construídos. Nos identificamos com eles tanto nas qualidades quanto nos defeitos.
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