Sobre Releituras
Ultimamente tenho inserido releituras em meio às minhas leituras correntes. Até alguns anos atrás isso era uma ideia inimaginável pra mim. Será isso um sinal de maturidade? E tem sido uma ótima experiência. Com o passar dos anos e o acumulo de livros e anos comecei a sentir uma necessidade recorrente de revisitar histórias, lugares e autores caros. Isso acaba sempre desencadeando muitas lembranças de situações vividas durante a leitura desses livros. Além disso, sempre que tenho uma ressaca literária ou me sinto meio perdido alguns desses livros me ajudam a reencontrar o meu norte.
Esse texto surgiu por acaso, como a maioria dos outros desse blog. Que sempre brotam de uma conversa com um amigo ou situação inusitada. Esse, por exemplo, me veio à mente depois que entrei em um sebo e me deparei com um exemplar de Cristo Parou em Eboli do escritor italiano Carlo Levi. Um dos meus livros favoritos, raríssimo e injustamente esgotado no Brasil desde os anos 80. Como sempre, o livreiro não tinha ideia do preço que é vendido na internet e cobrou um valor irrisório pelo exemplar. Não pensei duas vezes e o comprei para presentear um amigo com um gosto literário muito parecido com o meu.
Mas e a releitura onde entra nessa história? Então, como sempre que compro um livro usado começo a folhear o exemplar em buscar de pistas do passado dele. Falei sobre isso em um post anterior. Esse possui apenas uma assinatura, que não consegui decifrar e algumas linhas sublinhadas logo nas primeiras páginas: "Cristo realmente parou em Eboli, onde a rodovia e o leito da estrada de ferro abandonam a costa de Salerno e o mar, mergulhando nas desoladas terras da Lucânia, Cristo nunca chegou aqui, como também ate aqui não chegaram o tempo, nem a alma individual, nem a esperança, nem a relação entre a causa e os efeitos, a razão e a História."
Esse pequeno trecho me fez querer revisitar aquele livro imediatamente e praticamente deixei tudo que estava lendo de lado para me dedicar a essa releitura. Foi um experiência fantástica! Fui envolvido pela beleza do texto e li novamente como se fosse a primeira vez. Carlo Levi, foi um dos grandes opositores ao regime de Mussolini. Após ser liberado da prisão, foi condenado a exílio em Eboli, na Basilicata. Uma das regiões mais pobres e inóspitas da Itália. Além disso, Levi foi proibido de exercer qualquer atividade, principalmente a medicina, sua formação, a qual ele abandonou o exercício, para dedicar-se às artes plásticas e a pintura.
O livro conta as experiências e dificuldades do autor durante esse período em meio a uma sociedade completamente diferente da qual ele está habituado. Imagine uma pessoa que frequenta os altos círculos intelectuais tendo que conviver com pessoas completamente desprovidas de qualquer instrução em local árido e insalubre. A população de Eboli é formada em sua maioria por camponeses. Pessoas humildes, com um imenso complexo de inferioridade. “Não somos cristãos, não somos homens, não somos considerados como homens, mas sim como animais, animais de carga e ainda menos do que animais, menos do que os gnomos.” Vítimas do descaso das autoridades, praticamente ignorados. Mesmo com esse imenso abismo social surge uma amizade genuína. É difícil não se não se envolver com a prosa memorialista de Levi, que praticamente beira à poesia. E principalmente, com sua sensibilidade e visão de mundo sempre muito crítica, aguçada e acima de tudo, humana.
Uma última curiosidade sobre Cristo Parou em Eboli, o livro foi adaptado para o cinema em 1979 pelo cineasta Francesco Rossi e estrelado por Gian Maria Volonté. E possui duas versões, uma editada com 150 minutos que chegou a ser lançada em DVD no Brasil e também está esgotado. Além de uma versão do diretor com mais de quatro horas de duração que foi lançada em Bluray em versão restaurada pelo selo Criterion, mas essa só importando ou baixando nos sites de torrent.

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